domingo, 26 de agosto de 2012

Amor à três

     O Amor não é bem assim. Amar outra pessoa que não lhe deve nada, que não tem o mesmo sangue que você e que é completamente falho é a coisa mais difícil desse mundo. O inverso também é verdadeiro. Não o inverso do amor, porque odiar é muito mais fácil, e ser indifirente é logo ali. Mas alguém amar a mim, que não me deva e que não me tenha o sangue é mais difícil do que loteria. Não pela probabilidade (com sorte), mas pela dificuldade de acertar. Na verdade a gente passa a vida toda tentando acertar. Por eu ser como sou, e me conhecer bem, fico pensando que só pode ser impossível. Não vai dar pra alguém aguentar tanta mania, ninguém vai se adaptar ao meu jeito, nenhuma pessoa vai me entender. E eu, desse jeito meu, vou conseguir amar alguém que não vai se adaptar a mim, e a quem eu mesma terei que me adaptar?
     É inevitavelmente impossível.
     Deus, por ser do jeito que é, me amou, e amou quem eu não vou conseguir amar. Eu nunca em toda uma vida, com o mais suado esforço, com todos os métodos que possam existir, não conseguiria alcançar a Deus, suas "manias", seu jeito, sua perfeição e santidade. Ele nunca me amaria, se dependesse de mim, porque eu nunca conseguiria merecer isso. E Ele sabe, sempre soube, que eu erraria um milhão de vezes, e em mais 500 mil o deixaria triste. Mas Ele, que é o Amor em si mesmo, me ensinou que Amor de verdade não exige merecimento, menos ainda esforço e recompensa. Sua graça me mostrou que, justamente, receber algo sem merecer só multiplica o Amor naquele que recebe. A Graça é uma semente que o Deus poderoso, serena e não severamente, planta, e que dá frutos de mais amor e gratidão. Nada do que eu fizer vai conseguir fazê-lo me amar menos ou mais.
     Quem eu sou nunca vai me ajudar a ser amada por alguém e também a amar, porquê eu sou pessoa, e pessoas decepcionam, erram e machucam. Eu, sendo pessoa, tenho razão em considerar essa tarefa impossível, os românticos que me perdoem. Mas Deus é Deus e não pessoa, não é pessoa pra falhar e mentir. Se uma pessoa amar a Deus, nunca será decepcionada. Se duas pessoas compreenderem que Deus não mudará jamais e colocarem seu amor nEle, talvez exista uma chance de que consigam cumprir a árdua tarefa de amar, pois quando (e não "se") um dos dois falhar, ainda restará o Primeiro, que não se abala. Pela Sua Graça que perdoa sem merecer, talvez seja possível perdoar e seguir em frente, talvez seja possível lembrar que aquele de quem muito foi perdoado, muito ama. Talvez seja possível terminar uma tarefa iniciada de um jeito e que muda tanto pelo caminho e que é imprevisível. Talvez seja possível cumprir promessas feitas há tanto tempo  mesmo quando está tudo diferente e as coisas não tem mais graça. Talvez seja possível manter algum sentimento depois da paixão ter ido embora, mesmo que amor não seja sentimento, mas decisão. Talvez seja possível não esquecer o motivo de se estar junto e de ter feito uma aliança há tanto tempo atrás. Talvez seja possível ter manias e dividi-las, ter um jeito e ter mais dois ou três, ter um coração quebrado e refeito, ter que renunciar coisas todos os dias, ter que encontrar a beleza por trás da calvície que levou embora o príncepe.
     Não por que se é pessoa, mas porquê Deus é Deus.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Em espanhol, "despeço-me" se escreve "me despido". Outro dia parei no meio da loja em que a música estava tocando e finalmente entendi porquê solidões, faltas, despedidas e adeus nos fazem sentir nus.

Casa de mim

De lá pra cá e daqui pra lá. Vagarosamente, não estou ainda aqui, mas não mais lá... a sensação de não - mais/ainda - pertencer não é nova, mas a situação sim. A vaguidão, talvez.
Aí eu penso, como se define em que lugar a gente mora? Onde passa mais tempo, talvez.
Tenho morado dentro de mim.
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Ih, essa casa anda meio vazia...