terça-feira, 5 de abril de 2011

Impostora

    Eu tenho uma impostora em mim que não permite que eu sofra, não me deixa chorar e me condena quando sorrio. Me faz correr para trás em vez de caminhar para frente, me faz sentir dor por viver, por ser e também por não ser. Ela obriga a me esquivar, me angustia , me mantém sob uma lança e diante de uma espada, põe uma venda em meus olhos e uma armadura em meu peito. Existe uma impostora que segura minha cabeça para que eu não eleve meu rosto, amarra meus pés para que eu não consiga voar, põe inutilidades em minhas mãos para que eu carregue mais do que eu possa aguentar. Me veste de escárnio e me põe diante de um espelho, para que eu mesma seja a multidão. Existe uma impostora que sussurra ao meu ouvido que não existe nada no universo capaz de tamanha libertação, ninguém aprazível de tamanha graça, e me entrega um punhal, algemas e um abismo, me dizendo que não há ninguém que possa me ajudar, a não ser eu mesma, na caverna da auto-comiseração.
    Essa impostora sou eu, e todo impostor só o é diante da Verdade.
    Hoje me coloquei diante da Verdade, que é Jesus, e reconheci, mais uma vez, aquela que me aflige - que sou eu. Diante de todos os seus grilhões, reconheci cada um pelo nome, pois são meus. Diante da Verdade pude me ver, como sou, como sempre fui e tentei esconder. Libertação, porém, exige deixar coisas para trás, é desnudamento. O Libertador, que me conhece como impostora antes de me ter criado, mas que antes mesmo disso me amou, é o único capaz de me consolar enquanto choro, secar minhas lágrimas, se alegrar com meu sorriso. Me ensinar a caminhar para frente, me dar prazer pela vida, sabe o que posso ser e não ser. Me acalma, me deixa livre e mostra o caminho, me despe da armadura amarga e me veste com o cinturão da verdade, a couraça da justiça, o escudo da fé, o capacete da salvação e ainda me dá a Sua palavra como escudo. Me limpa de toda a zombaria e, mesmo que eu não mereça, me agracia e me perdoa, sem pedir explicação.
    O abismo, contudo, é o único que estará sempre ali. Meu Libertador gentilmente me olha e diz: sim, Eu vou contigo. E então, eu não temerei.